domingo, 5 de agosto de 2012

TETRATLON CHAPELCO relato da prova


A previsão que eu tinha feito das horas de prova, diminuiu após o briefing na véspera; percebi que o mountain bike seria bem mais fácil do que havia previsto, em compensação o esqui teria muito mais subida do que tínhamos testado. Na lógica corredor de aventura quanto pior melhor, talvez a dificuldade extra do esqui pudesse contar a favor. Agora era tentar descansar para encarar 15 km de esqui, 55 km de bike, 10 km de canoagem e 15 km de corrida de montanha; TETRATLON CHAPELCO 2012.


Fomos até o cerro Chapelco, a montanha de esqui onde seria a largada da prova. Fui com Laura minha amiga argentina e Hugo, seu namorado que também correu a prova. Após deixarmos as bikes na área de transição a gondola nos levava até o meio da montanha onde estava o pórtico de largada.


Poucos minutos antes do disparo um atleta me pergunta qual era a melhor modalidade:
_ "Todas são parecidas." _ analise que já tinha feito com meus botões: "Esqui - checked, bike sem muito esforço terá uma média boa - checked, caiaque sem vento - checked, corrida final - checked" Agora era ver como isso funcionaria na prática.


Foi dada a largada.


A primeira subida já conhecia, começava íngrime abrandava bastante e depois ficava assassina. Carregar os esquis exige tecnica; com uma mão segura se os esquis apoiados no ombro com encaixes para trás e um dos poles, o outro segue na mão livre para ajudar na escalada. O mais importante é a pisada; deve se cravar com força o bico da bota na neve, para que ela trave. É um teste que põe a prova a panturrilha, porque a escalada é feita na ponta dos pés.  Por incrível que pareça nem todos dominavam a técnica, ou não aguentavam mutilar suas panturrilhas. 
Percebi que levava vantagem em relação a maioria; era hora de atacar.


Desconsiderando algumas raras exceções é impossível subir correndo, o segredo é ir ritmado e não parar.
Algo que eu me contaria se já tivesse feito a prova: "Treine a transição, treine desencaixar o esqui do pé coloca lo nas costas e vice versa!" Eficiência que gerava vantagem.
No final da escalada o ventinho ao deslisar pista abaixo teve prazer extra. Desci numa velocidade que provavelmente não desceria fora de prova, tomando cuidado para não passar as curvas, havia muito gelo na pista.


O prazer durou pouco logo estava com os esquis nas costas novamente escalando até o primeiro esqui lift. Na afobação de não perder a cadeira que saía, me enrosquei com dois competidores e depois que saímos do chão é que resolvemos desfazer o nó dos esquis.O lift nos garantia 5 minutos de descanso, hora de aproveitar e comer. No topo da montanha era possível ver o soberano vulcão Lanin coberto de neve. A paisagem era estonteante, meus olhos encheram d´água.


Depois disso ainda tiveram 3 ascensões a pé mais 2 lifts e várias descidas. Com menos de 1.40h estava na base da montanha para a troca de modalidade. Vamos para a bike!


Os 55 quilômetros de bike foram fáceis; os primeiros 20 km eram um downhill até a cidade com a maior parte em asfalto. Fui salva algumas vezes por competidores que me davam vácuo deixando a descida mais rápida e com menos esforço. Depois subia se 350 m de desnível em uma estrada de terra com uma vista incrível e tornava se a descer em uma volta de 18 quilômetros que deveria ser feita duas vezes. 



O Tetratlon é uma competição muito tradicional em San Martin de los Andes, por todo o percurso tem muitos espectadores que torcem "Bamo, Bamo!" o tempo todo. Incentivo extra, não só para seguir, como também para continuar sorrindo. Final da bike em frente do lago Lácar. Com 56 km rodados e média de 21,8 estava pronta para entrar na água.


Aqui é preciso ser feito um ajuste e conversão; eu me considerava razoável na canoagem (razoável tipo nota 6) mas cruzando a fronteira a nota 6 do Brasil vira nota 2 na Argentina. Eu devia ter lido os sinais:
- 450 caiaques, menos de 20 eram alugados.
- Atletas remando sem luva (nunca confie num atleta que não usa luvas com zero grau).


Quando entrei na água estava me sentindo bem na competição estava no bloco da frente entre as mulheres. No trecho de remo eu poderia descobrir quantas tinham na minha frente e qual era a diferença de tempo que tinha para elas. 
Nas corridas de aventura normalmente os trechos de canoagem são os que eu mais gosto porque é onde se curte mais o visual. Certo.


Dez quilômetros de canoagem, cinco para ir e cinco para voltar.Como eu fui ultrapassada! A primeira atleta passou voltando quando eu estava perto do quilômetro 3 / 4, ai comecei a contar. Percebi que não estava tão bem como imaginava e a cada minuto que passada piorava. Desconsiderando as que estavam a minha frente, ainda fui ultrapassada por 10 mulheres na água, isso sem contar os caiaques das equipes duplas.

O remo se tornou uma tortura além do esforço que fazia meu psicológico ficava abalado. Lembrava a pergunta do meu "amigo" antes de largar, se soubesse teria lhe dito:
"Olha vou te falar, no esqui, bike e corrida eu me garanto, agora no caiaque, meu amigo, eu não sei remar!"
E todas as remadas na raia da USP? Todos os trechos de caiaque em provas de aventura? Eu até fiz uma maratona de 55 km de remo na Bahia...NADA! Esquece se você acha que rema bem, jamais cruze a fronteira!
Água gelada para os meus ânimos.
Luciana para Luciana:
_ "Está louca? Você está num lugar maravilhoso, um dia de sol incrível valorizado pela beleza patagônica, aproveita essas 10 que te passaram e corre literalmente atrás!"


Arranquei a bandeira do Brasil do caiaque com punho fechado partindo para a corrida. Agora vai!

Já na cidade passei a primeira mulher e quando começou a subir avistei a próxima. O trecho de corrida trazia um visual completamente diferente do que havia visto nas outras modalidades. No meio de um bosque o silencio reinava, árvores sem folhas, tom marrom de inverno predominante, uma paz e tranquilidade saciantes, trilhas estreitas cheias de folhas secas no chão.


A ascensão era forte com trechos com até 45% de aclive. Tentando correr o tempo todo segui, pensando que o trecho servia de treino para a competição de setembro. Pensando no Caco, meu treinador; "Vai Lulis alcança a próxima!".
"Duas juntas que maravilha!"
_ "Permisso!" _ passei ventando a 6ª e a 7ª. Faltavam quatro quilômetros, agora na descida tinha que aproveitar a vantagem da aventura enquanto ainda estávamos em trilhas. Mas a 7ª ultrapassada colou no meu cangote e segui pelo menos quilômetro ouvindo sua respiração. Quando avistamos mais uma, fiz sinal com a mão de avanço e seguimos em silêncio para mais um ataque. Juntas passamos a que seria a 8ª, mas sofri a investida da minha rival parceira, e até final da prova batalhei para segurar a posição.


Na avenida principal de San Martin de los Andes com 7h 38 terminei a 26ª  edição do TETRATLON CHAPELCO e a minha primeira, maravilhada com a paisagem local, recepção de um povo querido e realizada com a experiência. 
Em 6° lugar na categoria e 16° entre as mulheres.


Agradeço aos meus patrocinadores Sigvaris Sports, Suunto, New Balance. 
Obrigada especial à Laura e Hugo por todo o carinho, ajuda, amizade e hospitalidade nessa terra maravilhosa.
Agora é descansar e cruzar a fronteira para voltar a remar bem novamente!

8 comentários:

Raquel disse...

Uau, Lulizita! De arrepiar. Ainda viverei aventuras como essas que você descobre existir pelo mundo. Parabéns! Vc foi bruta. Sem fingimento. Hehehe!

Luli disse...

Raquelzitchas! Adorei o elogio, ainda vindo de uma bruta como você tem mais peso ainda! Muitos beijos =)

Arnaldo Maciel disse...

Incrível seu relato e sua prova, mandou muito bem e superou um grande desafio, agora valeu a dica, na Argentina eu devo ser "aprendiz" de remador então, beijos e me conta: Setembro é que prova?

FLOR E TRAPO disse...

Mais uma vez a mutante em ação.

Mana parabéns por mais uma aventura incrível como vc é boa em tudo.

Parabéns mesmo.
beijo

Ps. Seus relatos sempre incríveis.

Luli disse...

Arnaldo! Pois é... Remar aqui me trouxe outro referencial... Meu Deus!!! =)
A de setembro é a Transalpine 320 km de trail run em 8 dias!
Não esqueci que ainda temos que aprontar uma juntos!
Beijos

Luli disse...

Mana
É noix em setembro! Prepara o reboque que dessa vez vai ser por sua conta!
Te amo!

João Marinho disse...

Vocês mulheres é cá uma agressividade...como alguém já disse, sem fingimento! Parabéns brasileira! Ahh os 200km no Douro também não serviram de nada né? :)

Luli disse...

É mesmo Português!!! Teremos que remar uns 800 para começar a fazer alguma diferença pelo visto! Luv u